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Livro África

O fotógrafo Vinicius Garcia apresenta em imagens toda paixão que tem pelo continente africano. Depois de mais de uma década viajando constantemente para lá, por diversos países, em diferentes situações, ele faz um recorte e mostra no livro África, a pluralidade de um lugar tão especial para a humanidade.

Fotografia e Texto / Photography and Text

Vinicius Garcia

Edição / Edition

Vinicius Garcia, Renato Negrão e Bernardo Borges

Direção de arte e design / Art director and design

Bernardo Borges

Tradução / Translation

Ayman Alabadleh

Impressão e Acabamento / Print and Completion

Ipsis Gráfica e Editora

A África que nos ensina

Quando o a fotografia surgiu, no século 19, o mundo estava experimentando as novidades das cidades modernas, surgidas em um contexto de era industrial, que trouxe a máquina para substituir inúmeras atividades manuais.

Walter Benjamin, em um texto sobre o poeta Charles Baudelaire (um grande opositor à fotografia) diz, em uma crítica sobre essa cidade moderna que: “O caráter intelectual da vida da alma na grande cidade, em oposição a esta vida na pequena cidade, que se apoia sobretudo na sensibilidade e nas relações afetivas”.

Voltando ao século 21, onde tempo em que vive e trabalha o fotógrafo Vinicius Garcia, achei oportuno lembrar ao leitor que todo esse encantamento com um continente inserido em uma rede de complexidade e diferenças, me faz lembrar desses primeiros fotógrafos do século da Revolução industrial, quando a fotografia foi inventada, tiveram que lidar: usar uma máquina que através da luz, registra uma imagem, usando uma máquina como elemento intermediador entre o homem que a manipula e o que está a sua frente.

No caso de Vinicius, a África é que está diante de sua câmera, um continente pelo qual, depois de inúmeras viagens e contatos com seus moradores, desenvolveu grande respeito e admiração por tudo o que viu por lá. Esse encantamento com um mundo que não é o seu, me faz lembrar dos primeiros fotógrafos, aqueles que viram na fotografia, ainda embriã, uma maneira de percorrer o mundo e trazer na bagagem o resultado de suas descobertas em formas de imagens fotográficas.

Olhando as inúmeras fotografias de Vinicius sobre esse continente, são evidentes o respeito e as relações afetivas que ele cria com o que encontra em suas viagens por diversos países do continente africano. Não existe desejo de julgamento em suas fotos, nessa África vista e agora compartilhada na forma deste livro. A vida animal e toda a sua ancestral persistência pela sobrevivência caminham soltas, mesmo que em parques protegidos ou em áreas onde a fauna precisa lutar diariamente por comida e proteção contra as duras condições do clima da região, como é o caso dos animais em Damaraland. Em alguns ocasiões, a disputa por essa sobrevivência é com os poucos seres humanos que restam nos isolados lugares de um continente tão grandioso.

Mas não espere ver uma África sofrida, diminuída ou com suas entranhas extirpadas para impressionar o leitor. Não, Vinicius Garcia não faz isso, simplesmente porque ele não vê nada disso. Sua relação com o continente, suas diferenças culturais e a mudança na paisagem dos países que visita são observadas pelo viés do respeito e da admiração.

O que nos países de primeiro mundo virou estudo para tentar dar ao homem mais alegria e confiança na vida, por meio de técnicas de controle do pensamento ou mudança de atitude, os africanos trazem em sua genética uma genuína capacidade de ser feliz apesar de toda dificuldade. O sorriso largo, a alegria contagiante, o orgulho por ser o que são, apesar de todos os estereótipos criados através de anos de histórias mal contadas sobre eles, são algumas das descobertas que fez o fotógrafo criar uma conexão de humildade e vontade de aprender com eles a enfrentar as batalhas da vida.

Na série “Outlander”, transmitida pela Netflix, a personagem Claire, que viaja no tempo e vai do século 20 ao século 18, tenta explicar o que é fotografia ao grande amor de sua vida, um escocês durão e extremamente adaptado ao sistema manual de sua época. Ela diz: “Fotografia é como uma pintura, mas quem desenha é o sol”. Essa frase, que dá conta de uma explicação rápida e sem caráter de conter tudo o que é fotografia ou que pode ser, nos ajuda a olhar as imagens feitas por Vinicius Garcia de um continente onde o sol é vibrante, muitas vezes cruel, mas presente e celebrado em sua plenitude.

Essa luz, que molda o ritmo de vida, é a mesma Luz que é tão sabiamente usada por um fotógrafo que se curva diante da beleza e da complexidade do continente africano.

Renato Negrão